Criminalização da Transmissão sexual do HIV


Assunto: Nota técnica sobre a criminalização da transmissão sexual do HIV
1. O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais vem a público manifestar a
preocupação de que a criminalização da transmissão sexual do HIV constitua um retrocesso na
política brasileira de enfrentamento da epidemia da aids, podendo contribuir para o aumento do
estigma e preconceito.
2. O Programa das Nações Unidas para HIV/Aids (UNAIDS) posicionou-se por meio de
documento em que afirma que “não existem dados que demonstrem que a aplicação
generalizada da lei criminal à transmissão do HIV sirva para se fazer justiça ou para prevenir a
transmissão1. O Brasil ratifica a posição do UNAIDS.
3. O UNAIDS afirmou, no relatório sobre a epidemia mundial de aids, de 20092, que as
novas infecções pelo HIV reduziram 17% nos últimos oito anos. Os esforços empreendidos pelo
acesso universal à prevenção, tratamento, atenção e apoio relacionados ao vírus da aids estão
tirando a resposta à epidemia do isolamento. Desde 2001, ano que foi assinada a Declaração de
Compromisso das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o número de novas infecções na África Subsaariana
diminuiu cerca de 15%, o que representa aproximadamente 400 mil infecções a menos
em 2008. Na Ásia oriental, as novas infecções pelo HIV diminuíram quase 25% e na Ásia
meridional e sub-oriental 10% durante o mesmo período.
4. No Brasil, estima-se que 630 mil pessoas vivam hoje com HIV. Destes, cerca de 250
mil não conhecem seu status sorológico. Diversas ações no Sistema Único de Saúde estão sendo
desenvolvidas para ampliação do acesso ao diagnóstico da infecção pelo HIV.
5. A presença do vírus da aids no organismo é detectável com a realização de testes para o
HIV, disponíveis no Sistema Único de Saúde. Inegavelmente, houve um aprimoramento na
sensibilidade destes testes, contudo, deve-se considerar a existência da ‘janela imunológica’
(intervalo entre a infecção e a detecção de anticorpos anti-HIV no sangue) que, pode estender-se
por mais de trinta dias, período esse sendo esse período de alto risco de transmissibilidade.
6. Até o início de 1990, o diagnóstico para aids era considerado uma sentença de morte.
Com a introdução da terapia antirretroviral de alta potência (TARV), aliada ao diagnóstico
precoce e ao tratamento adequado, a aids tornou-se uma doença tratável e com características de
cronicidade3. Atualmente cerca de 200 mil pessoas estão em uso de terapia anti-retroviral no
1Criminalization of HIV Transmission. Policy Brief, 2008.
http://data.unaids.org/pub/BaseDocument/2008/20080731_jc1513_policy_criminalization_en.pdf.
2 Situação da Epidemia da Aids, 2009. http://www.unaids.org
3 Recomendações para terapia Antirretroviral em Adultos Infectados pelo HIV,2008. Ministério da Saúde,
Brasil.
país. Estudo recentemente realizado no Brasil4 demonstra que o tempo de sobrevida de
pacientes diagnosticados com aids vem apresentando um aumento substantivo.
7. As pessoas em uso de TARV têm o risco geral de transmissão do HIV reduzido em
92%. Estudo realizado no período de um ano demonstrou que o risco de um indivíduo em
tratamento transmitir o HIV, em relações heterossexuais, é de 0,46 para cada 100 pessoas e, na
ausência de tratamento, é de 5,64, no mesmo período5.
8. No âmbito da política brasileira, ações de assistência e prevenção são integradas, e
sendo a promoção ao uso do preservativo um dos métodos mais eficazes para a prevenção da
transmissão do HIV, constitui importante recomendação do Ministério da Saúde para a adoção
de práticas sexuais mais seguras. Para ampliar o acesso ao preservativo, o governo brasileiro
tem distribuído cerca de 500 milhões de unidades por ano.
9. Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, 77% da população brasileira entre 15 e 64
anos é sexualmente ativa. Destas, 96% sabem que o preservativo é o método mais seguro para a
prevenção ao HIV. Entretanto, somente 20,6% fizeram uso regular do preservativo em todas as
relações sexuais, nos últimos 12 meses.
10. O Ministério da Saúde tem trabalhado no desenvolvimento de novas estratégias de
intervenção, focadas na co-responsabilidade, na orientação e aconselhamento em saúde sexual e
reprodutiva do casal, que visam não somente a prevenção da transmissão do HIV, mas também,
a prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis6.
11. Apesar dos avanços científicos e da ampliação do acesso à informação, prevenção,
diagnóstico e tratamento, e do fato de todas as pessoas sexualmente ativas estarem
potencialmente expostas ao HIV, independentemente de sexo, cor, orientação sexual ou
profissão, a persistência do estigma e discriminação em relação às pessoas que vivem com HIV
constitui sério obstáculo ao enfrentamento da epidemia.
12. Em 1996, a ONU adotou as “Diretrizes Internacionais sobre HIV/aids e Direitos
Humanos”7 (E/CN.4/1997/37) e afirmou que “o respeito aos direitos humanos exige que as
pessoas que vivem com HIV/aids não estejam submetidas a penalização ou outras medidas
coercitivas, unicamente com base em seu status sorológico”.
13. O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, fundamentado nos princípios do
sigilo, da confidencialidade e dos direitos humanos, entende que processos que envolvam a
criminalização da transmissão sexual do HIV podem desencadear decisões e entendimentos
generalizados, comprometendo a resposta à epidemia.
Brasília, 27 de novembro de 2009.
Mariângela Batista Galvão Simão
Diretora
4 Guibu IA, Barros MBA, Cordeiro MRD et al. Estudo de Sobrevida de Pacientes de Aids no Brasil, Fase I –
1998-1999 – Região Sul e Sudeste. In Boletim Epidemiológico DST/AIDS, ano V, no 01 – 27ª à 52ª
semanas epidemiológicas – julho a dezembro de 2007 e 01ª à 26ª semanas epidemiológicas – janeiro a
junho de 2008. Ministério da Saúde. SVS. PN DST- AIDS. ISSN 1517 1159.
5 Attia S, Eggera M, Müller M et al., 2009. Sexual transmission of HIV according to viral load and
antiretroviral therapy: systematic review and meta-analysis. AIDS, 23 (11): 1397-1404.
6 Ministério da Saúde. Prevenção Posithiva. Brasília, 2007.
7 International Guidelines on HIV/AIDS and Human Rights, 2006. Consolidated Version.
http://data.unaids.org/Publications/IRC-pub07/jc1252-internguidelines_en.pdf

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