Tuberculose mata 5 mil por ano no país


Tuberculose mata 5 mil por ano no país
O GLOBO

02/06/2010

Desinformação e pobreza levam pacientes a abandonar tratamento contra a doença;
no Rio, situação é crítica

Natanael Damasceno e Isabela Martin

RIO e FORTALEZA. Rita Smith, de 47 anos, descobriu há dez que tinha tuberculose. Moradora da Rocinha, contraiu o bacilo pelo convívio com a mãe, que morreu da doença. Começou e abandonou o tratamento, que quando bem administrado é eficaz em 100% dos casos. Chegou a pesar 31 quilos. Mas conseguiu escapar da morte – destino que espera cerca de 4.700 brasileiros contaminados com tuberculose a cada ano, segundo o Ministério da Saúde – e hoje combate a tuberculose no local onde mora, levando principalmente informação às vítimas da doença, contribuindo para acabar com um dos maiores fatores de proliferação da doença: a desinformação.

Segundo o Ministério da Saúde, 52% da população não conhecem a tuberculose.

Na quarta reportagem da série “Doenças da Negligência” -, O GLOBO mostra que, apesar dos esforços para diminuir os indicadores de tuberculose, o Brasil ainda não conseguiu sair do grupo de 22 países do mundo que concentram 80% dos casos da doença. A incidência vem caindo, mas a taxa ainda é de 37,4 contaminados por cem mil habitantes. Só em 2009, foram notificados 72 mil casos de tuberculose no país, o que levou o Brasil ao 19olugar no ranking dos países com mais casos no mundo em números absolutos.

Segundo o poder público, é impossível erradicar a doença, que tem nos bolsões de pobreza terreno fértil para a proliferação.

Profissionais da saúde afirmam que a infraestrutura que atende os pacientes é insuficiente e favorece a transmissão.

No Rio, pacientes sem isolamento

No Rio, estado com a maior taxa de incidência da doença no país, o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) constatou em vistoria recente que o principal hospital para o tratamento da doença no estado, o Instituto Estadual de Doenças do Tórax Ary Parreiras, em Niterói, enfrenta dificuldades, como déficit de médicos, falta de equipamentos e problemas de infraestrutura.

– Achamos problemas como descontinuidade dos programas de acompanhamento pós-alta.

Há problemas sérios com a falta de isolamento (dos pacientes).

Mais importante que isso, já havíamos visto que houve aumento do número de casos de infecções primárias de tuberculose por bacilos multirresistentes às medicações. As dificuldades no tratamento estão pondo em risco toda a população – diz Pablo Queimadelos, da Comissão de Saúde Pública do Cremerj.

Superintendente de rede de unidades próprias do estado, Carlos Eduardo de Andrade Coelho rebate as críticas do Cremerj.

Ele diz que o hospital tem recebido investimentos desde 2007 e garante que o quadro de médicos está completo. Diz ainda que o estado investe na continuidade do tratamento, mantendo internados até o fim do tratamento os que não têm endereço fixo.

A taxa de infecção no estado, cerca de 68 pessoas por cem mil habitantes, é o dobro da média nacional e 14 vezes o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS): cinco casos para cada grupo de cem mil.

Segundo o médico sanitarista Draurio Barreira, coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, o problema no estado ainda é a baixa cobertura da rede básica de saúde. Apesar de o governo do estado e as prefeituras afirmarem que estão investindo nos postos de saúde e em programas como o Saúde da Família, casos como o da doméstica Lenilsa da Silva, de 51 anos, não seriam raros.

– Depois de semanas com febre, fui à emergência do (Hospital Municipal) Miguel Couto, onde os médicos disseram que eu tinha pneumonia. Apesar dos antibióticos, comecei a perder peso.

Só após um mês descobri, num posto de saúde, que tinha tuberculose. Para piorar, tive alergia a um dos remédios e tive de refazer todo o processo. Só tive alta no último dia 5, mais de um ano depois de procurar o hospital – disse Lenilsa.

Draurio Barreira afirma que boa parte da culpa no processo é da desinformação. Ele lista como fatores de risco questões climáticas, históricas e sociais. Mas diz que a ignorância é o principal entrave. A opinião é compartilhada pela coordenadora do Programa de Pneumologia Sanitária da Secretaria estadual de Saúde e Defesa Civil do estado do Rio, Lizia Maria de Freitas.

Segundo Lizia, cerca de 13% das pessoas diagnosticadas acabam abandonando o tratamento, número bem superior aos 5% recomendados pela OMS. O abandono leva à reincidência da doença e facilita o desenvolvimento de resistência ao medicamento.

Lizia diz que um trabalho conjunto com o Ministério da Saúde e com os municípios tem conseguido baixar os índices nos últimos dez anos: – Nas áreas carentes, o paciente até tem mais dificuldades para completar o tratamento, mas o que temos feito, junto com os municípios, é investir no tratamento supervisionado.

Ligação com o HIV

O ministério diz que, apesar de a taxa de incidência ser alta no Rio e no Amazonas, os números também ficaram acima da média nacional em metade dos estados da federação. Um dos dados que mais preocupam as autoridades é o alto índice de abandono do tratamento. No Ceará, foram diagnosticados, em 2009, 3.453 casos novos no estado, a maioria (1.659) em Fortaleza. Segundo a Secretaria de Saúde do estado, 7,1% das pessoas notificadas abandonaram o tratamento.

A aposta do ministério para combater o problema é o maior controle da doença a partir do tratamento supervisionado de curta duração. Os agentes de saúde acompanham o paciente para que não haja desistência.

– A tuberculose é uma doença da pobreza. Como é transmitida pelas vias respiratórias, as aglomerações noturnas em casas pequenas com muita gente e o uso do transporte coletivo aumentam as chances de contaminação – explica o coordenador de Promoção e Proteção à Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Manoel Fonseca.

Os fatores que mais influem no aumento dos casos são a pobreza e a infecção pelo HIV. A Secretaria de Saúde tem recomendado que portadores do vírus da AIDS façam teste para tuberculose e vice-versa. Em 2008, o percentual de cura ficou em 72,3%.

O índice abaixo da média nacional é considerado muito ruim pelas autoridades estaduais de saúde. Há menos de dois meses, uma equipe do Ministério da Saúde esteve em Fortaleza preocupada com outro indicador: o percentual de casos novos ignorados, 8% em 2008.

– Não sabemos se essas pessoas tiveram alta ou deixaram o tratamento – disse Fonseca.

Essas fichas foram analisadas individualmente. A secretara crê que isso se refletirá na melhora dos índices no fim deste ano.

“Os medicamentos maltratam o corpo”

Pacientes relatam as dificuldades na continuidade do tratamento

Natanael Damasceno e Efrém Ribeiro*

RIO e TERESINA. A Clínica Pneumológica do Hospital Getúlio Vargas (HGV), o principal de Teresina, atende 84 pacientes com tuberculose. Muitos estavam certos de que a doença hoje seria rara. Perceberam o engano após alguns exames.

A aposentada Antônia da Silva Sousa, de 75 anos, foi fazer exame do coração para se matricular em uma academia de ginástica e fisioterapia especializada em terceira idade. Os exames foram feitos no mesmo período em que um inchaço apareceu em seu pescoço e ficou saliente. Foi ao hospital, passou por bateria de testes, inclusive biópsia, até que a médica desconfiou que ela estava com tuberculose. A suspeita da contaminação foi o consumo de leite tirado direto da vaca, sem pasteurização.

Confirmada a doença, Antônia diz ter passado por maus bocados por causa dos efeitos colaterais da medicação. Ela toma seis comprimidos por dia.

– Os medicamentos maltratam o corpo.

Fica um ruído no estômago, tenho vômitos e preciso comer um mamão depois que os tomo, porque não consigo suportar.

Os medicamentos são muito fortes.

Tanto as fezes como a urina saem vermelhas – declarou Antônia, em tratamento contra tuberculose desde fevereiro, e sem prazo para concluí-lo.

O desempregado Francisco Maciel Ferreira da Silva, de 28 anos, soube esta semana que está com tuberculose: – Ninguém da minha família teve essa doença, minha casa é limpa e arejada.

Não sei, e nem os médicos (sabem), a causa de eu ter contraído tuberculose.

Ele só procurou ajuda médica um mês depois de sentir febre e tossir muito.

Achava que os sintomas poderiam ser curados com medicamentos caseiros ou remédios contra a gripe comprados nas farmácias sem prescrição médica.

No Rio, a situação não é diferente. Fundadora e presidente do Grupo de Apoio a Ex-Pacientes e Pacientes de Tuberculose, na Rocinha, Rita Smith diz que é difícil para o paciente carente manter o tratamento: – As autoridades dizem que os pacientes abandonam o tratamento, mas deveria ser questionado é quem abandona quem.

Quem não tem o que comer, quem tem filho pequeno, quem perdeu a casa em um deslizamento, essa pessoa acaba deixando o tratamento em segundo plano. A vida do paciente carente, as dificuldades de atendimento, o preconceito, tudo isso acaba fazendo com que ele tome essa escolha.

Um mal da ignorância, diz ministério

Responsável pelas medidas de controle contra a tuberculose adotadas pelo governo, Draurio Barreira afirma que o objetivo imediato do Ministério da Saúde não é a erradicação da doença, mas retirá-la da lista de problemas de saúde pública.

Para isso, diz que está investindo em informação.

Draurio afirma que, mais que a pobreza, é a ignorância que facilita a propagação da tuberculose no Brasil: – A doença é muito presente em áreas de miséria, mas não é exclusividade de países pobres.

Tanto que não foi erradicada em nenhum lugar do mundo. A tuberculose é uma doença da desinformação.

Ele não nega, no entanto, que a transmissão da doença acontece com mais facilidade em bolsões de pobreza. Segundo Draurio, os grupos mais afetados, em geral, vivem em condições de total exclusão social – como a população de rua e a população prisional: – Mas há ainda outros grupos, como os doentes que desenvolvem imunodeficiência.

Hoje a tuberculose é a principal causa de morte dos pacientes com AIDS não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Sobre a alta taxa de incidência no Rio, o médico, que é carioca, diz que o problema está na cobertura da saúde básica.

– O problema no Rio é que o estado é hospitalocêntrico, e a cobertura da atenção básica é pequena.

Isso vem sendo trabalhado. Há dois anos, a cober tura do Programa Saúde da Família era de menos de 5%. Hoje, já estamos em 9%. Ainda é pouco, mas há um esforço para melhorar.

Por isso, quando tem qualquer problema agudo, o paciente corre para o hospital, que é quem está menos preparado para detectar o bacilo.

No hospital é possível que o profissional pense que é uma pneumonia, trate por 15 dias e mascare a tuberculose.

No fim, ela volta mais resistente.

Segundo Barreira, a maioria dos profissionais dos postos de saúde está apta a identificar os sintomas da doença – tosse, emagrecimento, febre no fim da tarde, sudorese noturna, cansaço – e há exames que apontam o diagnóstico com precisão, como a baciloscopia e o raio-x.

Ele conta que o ministério trabalha hoje com duas prioridades. Uma é a descentralização, possibilitando a qualquer profissional de saúde diagnosticar precocemente a doença. Outra é a parceria com organizações comunitárias, associações de moradores e ONGs para dar visibilidade à tuberculose.

– Fizemos uma pesquisa com a ONG Fundo Global que confirmou o que sabíamos: mais de metade da população não conhece a tuberculose.

E, se você não sabe o que é, não se preocupa com a doença. (Natanael Damasceno)

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